I Encontro Mulheres em Pauta: história oral, gênero e muito mais!

Conseguimos sentir o alcance da história oral quando, ao sair dos nossos espaços costumeiros de discussão, nos deparamos e encantamos com os rumos que seus ensinamentos podem tomar.

Evidentemente reconhecemos a existência de diversos grupos que têm a história oral como denominador comum, apesar das diferentes formas que esta prática pode assumir.

No caso do NEHO-USP, esta certeza é sempre estimulante, já que vários pesquisadores do grupo atualmente atuam em instituições pelo Brasil afora. De alguma forma, sempre estendendo os tentáculos desta forma de saber que se populariza e suscita novas reflexões.

Os frutos deixados podem surpreender!

Este é o caso do movimento que tem tomado corpo na UESPI, em Parnaíba, no Piauí. Os alunos e alunas do curso de História, que contaram com a presença da professora Marta Rovai durante um ano, foram responsáveis por reforçar a sensação de que a história oral se desdobra em muitas possibilidades.

Nos dias 6 e 7 de março, foram estes estudantes e pesquisadores, com ênfase para as mulheres do grupo, responsáveis pela realização do I Encontro Mulheres em Pauta. O evento reuniu, além do público acadêmico, a comunidade e os poderes públicos da cidade. O objetivo foi discutir e refletir aspectos concernentes às condições das mulheres tanto da região como em seus aspectos mais abrangentes.

O primeiro dia foi voltado para o lançamento do livro “A greve no masculino e no feminino [Osasco, 1968], de Marta Rovai, e para o debate do I Mulheres em Pauta: Narrativa, Reflexões e Diálogos, com a participação de Marta Rovai, Marcela Boni e Mary Angelica Tourinho.

lançamento

O segundo dia foi destinado à apresentação e orientação de trabalhos em desenvolvimento ou pretendidos dos estudantes da universidade, nesta ocasião, voltados para as questões de gênero.

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Os assuntos abarcaram projetos das áreas de História, Direito e Saúde e se debruçaram sobre temas como a Lei Maria da Penha e seus desdobramentos, a prostituição, o atendimento em saúde às vítimas de violência, a produção cultural, bem como as experiências das populações locais, especialmente as dos pescadores e “pescadeiras” da região.

A diversidade de temas e abordagens dialogam intensamente com o histórico do NEHO-USP, onde são tão marcantes as variedades temáticas e desdobramentos das pesquisas. É possível dizer, sem titubear, que falamos a mesma língua!

A felicidade e satisfação que este encontro propicia às reflexões em pauta no grupo do NEHO é algo estimulante! Saber que em outras paragens, tão distantes geograficamente, temos os mesmos pressupostos e, mais que isso, os mesmos anseios reflete o que, em parceria, almejamos. A transformação dos espaços onde atuamos em nossas práticas cotidianas e subjetivas.

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Avante!!!

Conhecimento é pra compartilhar! O rádio como espaço de difusão e valorização de saberes em diálogo com a história oral

Por Marcela Boni

Em tempos em que o audiovisual ocupa cada vez mais espaço, muito já foi dito a respeito das transformações metodológicas nas práticas utilizadas pela história oral. Cada vez mais são produzidos vídeos com o intuito de contar histórias das mais diversas modalidades e com objetivos que são tão múltiplos quanto os formatos dos documentos produzidos.

Entretanto, ao nos voltarmos para a história desta área de conhecimento, verificamos a centralidade da oralidade. E basta que nos permitamos um simples exercício para percebermos o quanto a experiência sensorial ligada à escuta é particular e insubstituível. Exemplo prosaico seria comparar ouvir uma música e assistir ao videoclipe da mesma. Embora o vídeo possa ampliar o circuito criativo dos envolvidos com a obra, sua recepção pelo público tende a minimizar as imagens criadas pelos próprios ouvintes ao ouvirem a música. Não é à toa que muitos de nós já nos pegamos ouvindo músicas de olhos fechados…

Com isto, pretendemos evidenciar as especificidades da oralidade e dos sons e trazer ao diálogo as múltiplas possibilidades existentes no rádio enquanto meio de comunicação. Sabemos que seu status de elemento principal na divulgação cultural há décadas foi substituído pela televisão. Porém, diferente de tirar de cena o rádio, esta nova condição estimulou criativamente o espaço que ocupa, ressignificando seu potencial em termos de produção e difusão de conhecimentos e saberes, bem como das relações estabelecidas com o público.

Em alguns casos, os que valem a reflexão aqui posta, as rádios absorveram de forma brilhante este potencial, agregando à vocação de “tocar músicas” um comprometimento com a sociedade e, sobretudo, com os grupos que pertencem às comunidades próximas. Falamos, sobretudo, das rádios comunitárias que sem dúvida se prestam muito mais que a divertir seus ouvintes. Além do entretenimento, programas elaborados especialmente para tratar de temas contemporâneos e com caráter informativo casam de forma harmoniosa com a participação sempre possível com os ouvintes.

A rádio comunitária Rádio Cidadã, localizada no bairro do Butantã é exemplo de tudo quanto foi dito. Mas, para além desses atributos possivelmente o mais especial seja o de não “nivelar por baixo” seus ouvintes. Independente da formação da comunidade, todos são convidados mais que a ouvir canções selecionadas ou pedidas, a refletir sobre questões de revelo social, principalmente aquelas que envolvem diretamente os interesses mais particulares do local.

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Exemplo disso é o Programa História Cidadã, que tem como ponto de partida a discussão de temas históricos e de outras áreas correlatas e que conta com a participação de pesquisadores de diversas disciplinas para propor discussões e reflexões.

O Núcleo de Estudos em História Oral teve sua participação neste projeto. Algo que demonstra um diálogo promissor entre as possibilidades oferecidas pelos dispositivos oferecidos pelo rádio e os métodos e práticas da história oral.

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Em comum, ambos tem no contato com a oralidade seu canal de pensamento e disseminação de conhecimentos. Juntos podem promover inúmeras relações que se baseiem na valorização das histórias das pessoas, seu registro e, principalmente, sua publicização. Desta forma, convidam os sujeitos a protagonizarem suas histórias e, principalmente, sentí-las como parte integrante e indispensável dos processos históricos pelos quais passamos. Ao tornar de alcance público tais experiências, o rádio mais uma vez pode ressiginificar seu papel na sociedade.

Transcriação e colaboração: mais que conceitos, uma forma de compartilhar conhecimentos

Por Marcela Boni

Diante de tantas possibilidades que se mostram atualmente para o trabalho com história oral, por vezes nos deparamos com uma vivência de trabalho utilitária, ainda que comprometida com rigores relativos ao trabalho de pesquisa.

Certamente que tal situação não poderia ser imaginada poucos anos atrás, quando os estudos de história oral eram menos difundidos e gozavam de menos prestígio, sobretudo em ambiente acadêmico.

Não foi sem esforços grandiosos e insistentes que, acompanhando a ocupação de novos espaços, sobretudo, em ambiente comunitário e institucional, a reflexão teórica se tornou mais consistente. E, a despeito das diferentes tendências e abordagens nos usos da história oral, podemos observar uma produção teórica que se consolida pautada em discussões procedimentais, éticas e metodológicas.

Em todo caso, alguns procedimentos adotados por parte dos pesquisadores da área continuam sendo questionados, especialmente no que concerne à requerida cientificidade da produção de conhecimentos.

Dois conceitos são particularmente alvos de críticas neste sentido: o de colaboração e o de transcriação, ambos introduzidos por José Carlos Sebe Bom Meihy.

Em linhas gerais, tratam-se de conceitos cujas definições são complementares. Colaboração pressupõe justamente a aceitação de que o produto final de um projeto de história oral é resultado de uma dupla representatividade. Desta forma, pesquisador e entrevistado, aqui denominado colaborador, assumem a responsabilidade pelo produto confeccionado coletivamente. A entrevista de história oral, elemento central do trabalho é, assim, a reprodução de um encontro a partir do qual se constrói uma narrativa a respeito de determinado assunto ou tema pertinente à pesquisa.

Evidentemente não se busca, com isso, ocultar as relações de poder que se colocam, nem tampouco subtrair as diferenças de gênero, geração ou de origem que marcam as subjetividade envolvidas. Contudo, ao aceitar as condições colocadas abre-se a possibilidade de uma produção de saberes diferenciada porque atinente a tais contradições.

A idéia de colaboração, ao se amparar neste pressuposto convoca a elaboração textual que culmina com a transcriação.

Esta definição, apropriada da literatura, no campo da história oral confere ao autor do projeto a possibilidade de construção de uma narrativa atenta mais aos sentidos do que é falado durante a entrevista do que à reprodução de palavras de forma literal. Daí a importância do comprometimento por parte do pesquisador tanto com o entrevistado quanto com sua história. História esta, que se torna de conhecimento do pesquisador para além do momento da entrevista.

O envolvimento que se estabelece pode fugir à cientificidade exigida por alguns, entretanto denota o caráter humano que envolve o trato com pessoas que, mais que objetos de pesquisa, são protagonistas de suas trajetórias, as quais colorem nossas pesquisas e sem as quais não teríamos condições mínimas de levar a cabo projetos de história oral.

O mote para esta reflexão está relacionado a uma experiência pessoal desencadeada pela pesquisa de mestrado “Padecer no paraíso? Experiências de mães de jovens em conflito com a lei”, na qual foram entrevistadas mulheres que tiveram parte de suas histórias marcadas pela experiência de uma maternidade adversa.

As história ouvidas e reproduzidas em textos transcriados gerou não somente a dissertação de mestrado mencionada, felizmente!

Mas, foi apropriada por uma das colaboradoras, Solange Prudes, em parte da publicação idealizada pelo grupo “Mães de Maio” no livro intitulado “Mães de Maio, Mães no Cárcere – A Periferia Grita”.

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Parte da história de vida transcriada foi utilizada por Solange em sua participação na publicação. Ali estava sua história. Sua autoria, mais que apropriada, levava entre parênteses minha participação. Assim como em minha dissertação sua presença dividiu espaço com outras colaboradoras e com minhas análises.

Transcriação, colaboração e, mais que tudo, a validação do meu trabalho exposta na identificação de minha colaboradora com o NOSSO texto!

O resultado do trabalho de história oral pode não ter sempre esse desdobramento, mas indiscutivelmente apreciar esse desfecho reforça as reflexões teóricas e metodológicas que tantos de nós nos esforçamos para construir!

Educação e Memória: Projetos de História Oral

Por Vanessa Paola Rojas Fernandez

Inseridas no grande tema “Educação e Memória”, três propostas gerais de projetos de história oral podem ser pensadas e executadas entre professores e seus alunos: (1) A construção e preservação de uma memória histórica de instituições educacionais, (2) A problematização de questões sociais contemporâneas existentes nos espaços educacionais e seus entornos, (3) A utilização do método no ensino de História.

Na proposta 1, trata-se do aprofundamento de uma temática pouco conhecida ainda, que é a historicidade das instituições educacionais fornecida pelas memórias das pessoas envolvidas com esses espaços. Nesta proposta, professores e ex-professores, funcionários e ex-funcionários, alunos e ex-alunos ou outros membros da comunidade podem ser entrevistados, de acordo com o projeto elaborado. Assim, os vários grupos existentes podem configurar várias “redes”, fornecendo histórias e opiniões diferentes sobre um mesmo assunto, o que evidencia as múltiplas identidades existentes ao longo da trajetória histórica do local. Tratando-se de um projeto de história oral temática, porém não menos subjetivo, já que constituído segundo valores e sensibilidades de pessoas, a proposta pode ser ampliada e enriquecida com a eleição de uma pessoa de cada uma das redes para ser entrevistada nos moldes da história oral de vida, o que valoriza a trajetória pessoal de sujeitos profundamente envolvidos com a instituição. Outra alternativa de ampliação e enriquecimento desta proposta pode se dar com o acréscimo de outras fontes documentais, já existentes na instituição ou coletados entre os entrevistados, o que, por sua vez, há de gerar um novo tipo de trabalho: o de seleção, organização e conservação de documentos.

Em São Paulo, o Centro de Referência em Educação Mário Covas merece destaque nesta proposta. Entre suas atividades, o “memorial da educação”, constituído de exposições físicas e virtuais sobre a escola pública e a história da educação paulista, de tratamento documental da E.E. Caetano de Campos, de orientação para a preservação de arquivos de escolas antigas e das histórias de escolas estaduais paulistas, com a publicação de dados e informações históricas de diversas escolas em seu site e com a memória oral, que é a coleta e a publicação no site de depoimentos de educadores e alunos da rede estadual paulista. Vale a pena visitar o site do C.R.E. Mário Covas (http://www.crmariocovas.sp.gov.br/) onde podem ser encontrados depoimentos em forma de textos, de vídeos e até mesmo pequenos manuais de orientações para professores!

Na proposta 2, trata-se da problematização de questões sociais contemporâneas existentes nos espaços educacionais e seus entornos por meio da história oral, já que cada espaço educacional agrega em si muito mais do que um espaço físico com educadores e educandos, mas um espaço social e cultural, constituído de relações humanizadas, de trocas culturais, de diálogos e conflitos, sendo, portanto, locais plenos de reflexões a serem desenvolvidas. Assim, histórias de vida de professores, histórias de vida ou história oral temática de alunos da EJA, histórias de vida ou história oral temática com moradores antigos do bairro ou da comunidade onde se encontra a instituição e história oral temática sobre práticas culturais específicas desse local são algumas das temáticas possíveis para problematizar tais questões, valorizando os saberes locais e as diversidades existentes.

Nesta proposta, está sendo desenvolvido um projeto de história oral em uma escola municipal de Campinas/SP, onde muitos de seus alunos são provenientes de outras cidades do país, especialmente do norte e nordeste, constituindo este bairro, portanto, um lócus de imigração. Sendo este um importante tema social do tempo presente e parte da história contemporânea da escola e da própria cidade, este projeto tem como proposta entrevistar alguns desses imigrantes, alunos da EJA, a fim de se construir um registro do tema e gerar reflexões sobre ele. Mais do que isto, evidenciar e valorizar as trajetórias desses alunos, de suas experiências pessoais e coletivas, como proposta pedagógica da escola, uma vez que todo o trabalho está sendo desenvolvido por alunos do ensino regular.

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Projeto “História oral de imigrantes na região do Jardim São Marcos, em Campinas/SP, com alunos da EMEF Padre José Narciso Vieira Ehrenberg”. Professora Vanessa P.R. Fernandez.

Por fim, a proposta 3, que está intimamente relacionada às propostas 1 e 2, quando o professor idealizador do projeto opta para que ele não seja conduzido individualmente, sob o formato de uma pesquisa, mas coletivamente entre professores e alunos, colocando-se como mediador do processo. Nesta proposta, conteúdos da disciplina ministrada podem ser explorados pelos alunos por meio da história oral. Trata-se de um método criativo que se apresenta para o ensino de História e as práticas de sala de aula. A sala de aula expande-se como laboratório de pesquisa e de produção de conhecimentos. Os alunos tornam-se sujeitos mais atuantes no processo educativo como pesquisadores e produtores do conhecimento histórico ou até mesmo como os próprios sujeitos históricos e produtores de sua história. E todas as relações aí existentes tornam-se, enfim, mais humanizadas. No entanto, vários cuidados serão demandados: preparar o projeto com os alunos, conscientizá-los sobre a seriedade do momento da entrevista e o respeito com o entrevistado, orientá-los na elaboração de um roteiro e no tratamento do material registrado, entre outros. Artigo que aborda sucintamente estes cuidados foi escrito pela pesquisadora Suzana Lopes Salgado Ribeiro, “História oral na escola: instrumentos para o ensino de História”, o qual também pode ser acessado virtualmente, no volume 4 do site da Oralidades. Revista de História Oral (http://oralid.vitis.uspnet.usp.br/).

Um minicurso sobre este tema foi realizado no XXVII Simpósio Nacional de História, ocorrido recentemente na UFRN, pelas pesquisadoras Vanessa Generoso Paes e Vanessa Paola Rojas Fernandez.0-1

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O objetivo principal deste minicurso foi evidenciar e estimular trabalhos de história oral em espaços educacionais, abordando o processo de criação e de execução de projetos e refletindo sobre as possibilidades analíticas decorrentes. Trabalhos realizados em escolas e universidades foram apresentados aos alunos como exemplos. Questão que surgiu com o debate, por se tratar do cotidiano profissional e pessoal de vários dos professores presentes no curso e da realidade da educação brasileira, merece aprofundamento:

Como pensar e executar projetos de história oral em escolas que não possuem infraestrutura, tais como gravadores, filmadoras, computadores e Datashow e/ou apoio pedagógico aos professores?

Filme “Carregadoras de Sonhos”, que mostra a rotina de quatro professoras de Sergipe.

Filme “Carregadoras de Sonhos”, que mostra a rotina de quatro professoras de Sergipe.

Referências Bibliográficas

DEMARTINI, Z.B.F. & TENCA S.C. & TENCA A. Os alunos e o ensino na República Velha através das memórias de velhos professores. IN: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n.52, 1985.

_______________. Magistério primário: profissão feminina, carreira masculina. IN: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n.86, 1993.

FONSECA, S. G. Ser professor no Brasil: história oral de vida. Campinas: Papirus, 2006.

MEIHY, J. C. S. B. A colônia brasilianista. História oral de vida acadêmica. São Paulo: Nova Stella, 1990.

________________. Manual de história oral. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

________________ & HOLANDA, Fabíola. História oral. Como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2007.

________________ & RIBEIRO, Suzana Lopes Salgado. Guia prático de história oral. Para empresas, comunidades, universidades, famílias. São Paulo: Contexto, 2011.

RIBEIRO, Suzana Lopes Salgado. História oral na escola. Instrumentos para o ensino de História. In: Oralidades. Revista de História Oral. São Paulo: NEHO, nº4, jun-dez 2008, pp.99-109.

Sites

Banco de memórias e histórias de vida da EPM/UNIFESP: http://www.unifesp.br/centros/cehfi/bmhv/

Memorial da educação do C.R.E. Mário Covas: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/

Oralidades. Revista de História Oral: http://oralid.vitis.uspnet.usp.br/

NEHO-USP comemora 21 anos com Seminário Internacional “Conhecimentos Compartilhados: Tradição e Modernidade”

O Núcleo de Estudos em História Oral da USP (NEHO-USP) comemora seus 21 anos de história com o Seminário Internacional Conhecimentos Compartilhados: Tradição e Modernidade. 

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O evento acontecerá em duas etapas, sendo Rio e São Paulo os cenários para o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e pesquisadores, que poderão também apresentar suas pesquisas.

Em São Paulo, o Seminário acontecerá nos dias 1, 2 e 3 de abril no Memorial da América Latina e terá como conferencistas intelectuais brasileiros como José Carlos Sebe Bom Meihy, Zilda Iokoi e José Luís Fiorin, e internacionais como Martin Lienhard (Universidade de Zurich, Suiça), Héctor M. Cruz Feliciano (Universidad Nacional Autónoma de Nicarágua) e Dov Cohen (Universityof Illinois).

A programação completa e maiores instruções para a apresentação de trabalhos podem ser conferidas nos links abaixo.

Conhecimentos Compartilhados – SP

Conhecimentos Compartilhados RJ-SP

Revista Oralidades recebe contribuições para o próximo dossiê “Tradição versus Modernidade”

A Oralidades: Revista de História Oral (ISSN 1981-4275) está recebendo trabalhos para o dossiê temático “Tradição versus Modernidade”, que comporá o décimo segundo número deste periódico.

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A Oralidades, vinculada ao Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO-USP) e ao Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (Diversitas-USP), oferece-se como espaço para a divulgação e o debate de questões relacionadas à história oral. A revista recebe artigos, entrevistas (histórias de vida), resenhas e traduções. Para o referido dossiê, lembramos aos interessados que o prazo para recebimento de contribuições é 22/03/2013 e o endereço para envio é oralidades.neho@gmail.com

As normas de publicação e o acesso aos números anteriores da revista podem ser consultados aqui.

 

 

Revista Oralidades lança seu novo número com o dossiê “Diversidades e Direitos”

Por Vanessa Generoso Paes e Márcia Nunes Maciel

A História Oral cada vez mais se legitima como estatuto de saber em diálogo como outros, ao invés de mera ferramenta auxiliar de pesquisa. A fundação da Associação Brasileira de História Oral (ABHO) em 1994 e a realização, no Rio de Janeiro, da X Conferência Internacional de História em 1998 foram marcos de um período no qual o termo, a ideia e a prática de História Oral se propagaram em universidades, centros de pesquisa, de documentação, museus e arquivos. Em nossos dias, a História Oral vem sendo desenvolvida em diferentes espaços: na academia, em comunidades e em instituições públicas e privadas, o que qualifica essa área do conhecimento como uma das mais promissoras tendências de entendimento da sociedade.

Dentro desse contexto, a Oralidades: Revista de História Oral surgiu em 2007 com o objetivo de contribuir para a discussão do fazer e do pensar da História Oral, oferecendo-se como espaço privilegiado de diálogo para pesquisadores de diferentes áreas e experiências. É necessário registrar que, além dela, só existe no Brasil um periódico acadêmico dentro dessa área do conhecimento, justamente a da ABHO. Sendo assim, a Oralidades ocupa papel importante no debate acadêmico (e também social), divulgando pesquisas desenvolvidas tanto no país como fora dele. A revista tem periodicidade semestral e publicou até o momento dez números. Desde 2010, possui também edição eletrônica, sendo possível acessar todos os números anteriores no seu site.

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A Oralidades contempla artigos de pesquisadores de diversas áreas do saber articulados com a história oral no âmbito local, nacional e internacional. No sentido de organizar tal produção e reunir textos afins, a revista adotou a ideia de dossiês temáticos, os quais são propostos e coordenados por professores e pesquisadores que estão vinculados ao NEHO. A revista é organizada e dividida em seis sessões: Linha & Ponto, Dossiê, Provocações, Historia Oral de Vida ou Entrevista, Tradução, Resenhas. Na Linha & Ponto, são apresentados textos de caráter ensaístico produzidos por autores convidados. No dossiê, articulam-se artigos referentes à temática escolhida para a edição. A sessão Provocações é o espaço para textos inovadores e provocativos sobre aspectos teóricos e práticos da história oral. História Oral de Vida ou Entrevistas prioriza as diferenciadas formas de apresentar resultados de entrevistas em História Oral. Tradução é um espaço reservado a textos de relevância internacional do debate da história oral. A sessão Resenhas atualiza a produção tanto em História Oral quanto com o diálogo que estabelece com os diferentes saberes. No conjunto das sessões, são reunidos temas que priorizam questões pertinentes à pesquisa da contemporaneidade. Seus autores desenvolvem reflexões e relatam experiências a partir de suas diferentes pesquisas ligadas à história oral.

O novo número da revista, cujo dossê temático é Diversidades e Direitos pode ser acessado no link abaixo:

Oralidades Diversidades e Direitos

História oral de imigrantes e relatos de práticas alimentares, uma possibilidade de reflexão analítica

Por Vanessa Paola Rojas Fernandez

O estudo de movimentos migratórios contemporâneos por meio da história oral é uma opção metodológica crescente na atualidade. A importância social do tema e, portanto, de seu estudo e consequentes debates são inegáveis, uma vez que também é crescente o deslocamento de pessoas no globo e que este deslocamento não é somente uma mudança de espaço físico, mas também social, econômica, politica e cultural, entre outras (SAYAD, 1998).

Entendendo a história oral como um conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um projeto e que continua com o estabelecimento de um grupo de pessoas a serem entrevistadas (MEIHY & HOLANDA, 2007), diversas questões podem ser observadas e analisadas na prática da história oral de imigrantes: os motivos da emigração, os motivos da escolha do local de destino, as dificuldades e as facilidades encontradas, os sentimentos e as opiniões do processo migratório são algumas delas. Mas mais do que questões pontuais e objetivas, a riqueza dessa prática metodológica encontra-se na subjetividade existente e na concretização de estudos de identidade e de memória.

O relato de práticas alimentares presentes na história oral de imigrantes pode ser tomado como exemplo para uma possibilidade de reflexão analítica: a comida do país de origem e tudo o que a envolve – seus cheiros, seus sabores, seus rituais – faz parte do processo de negociação identitária a que são submetidos os grupos imigrantes. Mais do que nostalgia, a comida pode ser um vínculo com a identidade nacional de origem, uma das formas de manutenção da mesma no novo território, uma forma de identificação entre seus pares ou até mesmo de marcação de diferenças entre os diversos grupos existentes.

Cartaz da Associação de Chilenos Residentes em Campinas e Região Pablo Neruda, com referência às comidas e bebidas típicas do Chile servidas nessas festas.

Cartaz da Associação de Chilenos Residentes em Campinas e Região Pablo Neruda, com referência às comidas e bebidas típicas do Chile servidas nessas festas.

Em uma pesquisa de história oral realizada com chilenos imigrantes residentes na cidade de Campinas/SP (FERNANDEZ, 2011), observou-se:

A preservação de certos hábitos alimentares chilenos no Brasil, mesmo após muitos anos de imigração, na entrevista da chilena Herminda, que emigrou em 1975, após seu marido ficar desempregado no Chile com o início da ditadura militar. Entrevistada aos 62 anos de idade e aos 35 anos de residência no Brasil, Herminda explicou como e porque manteve no âmbito de sua casa elementos de sua identidade nacional de origem, citando comidas chilenas que ela mesma sempre preparou para sua família, ao mesmo tempo em que teve que aprender receitas novas, brasileiras, e inseri-las no cotidiano alimentar: “Dentro de minha casa eu sempre mantive o idioma espanhol, aqui somente se habla. (…) Durante todo esse tempo eu mantive também as comidas que tínhamos lá: sempre faço cazuela, carbonada, pastel de choclo, picarones… e todos em casa adoram! Nesse aspecto minha cabeça é mais chilena ainda…”

A chilena Marianne chegou ao Brasil em 1978, acompanhando o seu marido, o qual, diferente da maioria dos chilenos que emigraram, não estava desempregado, mas em busca de novas oportunidades. Entrevistada aos 55 anos de idade e 32 anos de residência no Brasil, Marianne não narrou a preservação de hábitos alimentares chilenos em seu cotidiano ao longo desses anos, mas falou sobre o choque cultural existente para ela no início do movimento migratório, usando para tanto o exemplo da comida, uma forma de evocar imagens e representações: “No começo era horrível, eu só pensava em ir embora, até o pão eu achava horrível, as frutas, tudo ruim!”

O chileno Osvaldo emigrou em 1986, por não suportar mais o autoritarismo vigente em seu país. Ele foi entrevistado aos 44 anos de idade e 24 anos de residência no Brasil. Sua padaria em Campinas não possui na fachada letreiros e alusões explícitas ao Chile, mas é conhecida entre os chilenos da colônia por vender diversas comidas típicas chilenas, como hallullas, chilenitos, sopaipillas e empanadas, que são preparadas por ele mesmo. Trata-se, portanto, de um lócus identitário entre os imigrantes da cidade, um local onde outros chilenos, que não produzem a sua própria comida chilena, podem consumi-la, como podemos perceber em sua explicação sobre o que, em sua opinião, não é conveniente no Brasil: “Eu acho que você passa coisas aqui que nunca teria passado no Chile, e não estou falando em termos financeiros, mas aqui acontecem coisas absurdas! Um dia veio um chileno em minha padaria comprar empanadas e ele me mostrou as passagens de avião dele e de sua família, estavam voltando pro Chile depois de um susto que passaram aqui…”

O chileno Luís também fez da comida de seu país de origem uma atividade comercial no Brasil, ao mesmo tempo em que esta atividade reforçava sua chilenidade. Primeiramente, montou um restaurante tipicamente chileno em Campinas, o “Recanto Chileno”, que existiu por mais de 15 anos. Atualmente, esse restaurante já não existe mais, mas faz parte da memória coletiva dos chilenos dessa cidade, pois foi um local de produção e circulação de gêneros alimentícios chilenos e de estreitamento de vínculos entre os chilenos residentes na cidade, onde podemos perceber que o local era também uma referência para os que chegavam: “Eu trabalhei nesse lugar até 1984, quando saí e comprei um bar-restaurante, que foi o Recanto Chileno. Daí começamos a mostrar a nossa cultura para os brasileiros, os chilenos de Campinas se reuniam aí. Ajudamos muitos chilenos também: talvez quinze, vinte, vinte e cinco pessoas que passaram por aí trabalhando. (…)Da rodoviária eram mandados pro Recanto”.

A chilena Berta, entrevistada aos 61 anos de idade e 32 anos de residência no Brasil, integrante ativa de uma associação de chilenos da cidade, contou-nos sobre a comida e os costumes típicos do Chile como elementos fundamentais para a manutenção de uma comunidade chilena na cidade, demonstrando aí a comida enquanto esfera pública e a sociabilidade envolvida em torno dela. Em dias festivos e momentos importantes para a coletividade dos imigrantes chilenos, a comida figura entre seus elementos identitários no Brasil: “Nossas festas pátrias sempre têm sido muito boas, o pessoal que vai à festa vai pra se divertir, assistir uma apresentação do nosso conjunto folclórico, dançar, comer empanadas, humitas, pastel de choclo, tomar vinho, tomar borgoña, ponche, cola de mono, que são comidas e bebidas típicas preparadas para essa data.”

Apresentamos aqui algumas histórias de comidas presentes nas histórias de vida de chilenos imigrantes que foram entrevistados para uma pesquisa de história oral. O tema principal da pesquisa não era a questão da comida enquanto elemento identitário, mas as experiências desses imigrantes e suas opiniões e versões sobre o movimento migratório por eles empreendido. Por ser um trabalho de história oral de vida, o método utilizado não comportou questionários fechados da entrevistadora para seus entrevistados, mas uma relação de colaboração da parte de ambos, em sessões de entrevistas livres e abertas, nas quais os entrevistados tinham ampla liberdade de narrar a história de suas vidas, baseadas em suas memórias pessoais (MEIHY & HOLANDA: 2007; MEIHY & RIBEIRO: 2011). Desse modo, inevitavelmente alguns dos entrevistados abordaram o tema da comida, uma vez que ela demonstra a questão das identidades e das experiências de adaptação no novo país.

Nas entrevistas, vimos a comida enquanto instrumento de construção de identidades: para alguns, um modo de reforçar a chilenidade, seja no âmbito privado, dentro de suas casas, seja no âmbito público, em locais que produzem e vendem essas comidas e em festas comemorativas do grupo. Nestes casos, a comida expressou também a ampla rede de sociabilidade existente entre os chilenos da cidade. Para outros, a comida pode ser não somente um modo de estabelecer e reforçar identificações entre seus pares, mas também de marcar diferenças, na medida em que as comidas chilenas diferem das comidas dos nacionais e de outros grupos imigrantes da cidade.

Referências:

FERNANDEZ, Vanessa Paola Rojas. Dilemas da construção de identidade imigrante: história oral de vida de chilenos em Campinas. São Paulo, 2011. Dissertação (mestrado em História Social) – Universidade de São Paulo.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom & HOLANDA, Fabíola. História oral. Como fazer, como pensar. São Paulo: Editora Contexto, 2007.

_________________________& RIBEIRO, Suzana Lopes Salgado. Guia prático de história oral. São Paulo: Editora Contexto, 2011. Paulo.

SAYAD, Abdelmalek. A Imigração. Ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: Edusp, 1998.

 

Afinal, para que serve a história oral?

Por Marcela Boni

Olhando superficialmente, a pergunta que nos serve de mote pode parecer despropositada. Afinal, nos esforçamos constantemente para ressaltar a importância dos projetos de história oral e seu potencial diálogo com outras áreas do conhecimento e com as questões sociais que se levantam no mundo contemporâneo.

Justamente pensando nisso, cabe-nos evidenciar o que direciona tais trabalhos a partir das etapas que os estruturam. Para tanto elencamos as seguintes perguntas: história oral quando, de quem, como, por quê e, finalmente, para quem?

quando nos insere a preocupações que envolvem a produção documental em casos onde não há outros registros acerca do tema estudado. Entretanto, a preocupação central da história oral não estaria no puro preenchimento de lacunas, mas na produção de documentos alternativos e na valorização das narrativas envolvidas, o que imprime traços de subjetividade ao fazer. Busca-se eleger, neste sentido, temas pertinentes ao momento em que se desenvolve o projeto, de modo que possa haver sempre que possível, diálogo público a respeito.

De quem? Simplificadamente, podemos dizer que a história oral tem como pressuposto privilegiar visões alternativas acerca das experiências históricas e, desta forma, teriam maior espaço em seu escopo os grupos considerados minoritários ou marginalizados socialmente. Entretanto, importa ressaltar que ainda que isto seja visível, é desejável que os projetos abarquem também as diversas versões sobre as temáticas estudadas. Assim, vítimas e perpetradores teriam espaço em tais estudos.

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Como colocar em prática? Enfatizamos frequentemente a importância da elaboração de um projeto para o desenvolvimento de trabalhos de história oral. Indubitavelmente, este é o passo fundamental. Para além disso, é necessário deixar claro qual o gênero de história oral adotado (história de vida, história oral temática, testemunhal ou tradição oral), o que implica diretamente nos procedimentos operacionais, sobretudo, na condução das entrevistas e nos desdobramentos analíticos posteriores.

Já os motivos de elaborar e colocar em prática um projeto de história oral tem a ver com apontamentos que não raras vezes é alvo de críticas por parte de outros pesquisadores e diz respeito a um posicionamento comprometido com o presente e as tranformações sociais. De acordo com MEIHY & RIBEIRO (2011) “Porque o ‘aqui e agora’ é matéria essencial da história oral, não há como deixar de ver clamores de mudanças”.

Por fim, isto nos encaminha para a última questão. Para quem é feita a história oral? Sem desconsiderar as expectativas dos pesquisadores envolvidos, este ponto remete diretamente ao aspecto receptivo dos resultados dos trabalhos de história oral. O público, por assim dizer. E nisto nos referimos ao espaço público como um todo e ao potencial de proposição de políticas públicas que tais estudos evocam. A busca por uma produção de conhecimentos comprometida com uma história pública tem sido palco de diálogos que se estabelecem entre diversos setores sociais e profissionais e desencadeado iniciativas que buscam divulgar as histórias de vida dos entrevistados, de modo a ampliar o debate público a respeito das questões que estas suscitam.

Mais detalhes teóricos e metodológicos podem ser encontrados no Guia Prático de História Oral, publicado pela Editora Contexto.

Entre-vistas: diálogos possíveis entre história oral e jornalismo

Por Marcela Boni

Quando falamos em história oral, inevitavelmente nos referimos à prática da entrevista. Esta é parte central dos trabalhos que se apóiam nos procedimentos de história oral e, portanto, deve obedecer suas especificidades, as quais envolvem questões éticas e metodológicas próprias.

Contudo, corriqueiramente nos deparamos com entrevistas as mais diversas. Acompanhando os fluxos de informações do mundo globalizado e contemporâneo, multiplicam-se também as formas de realizar e publicar seus resultados, sendo cada vez mais fundamental refletir acerca da recepção destes materiais.

Em grande parte, são produtos de origem jornalística os mais identificados com a prática que geralmente envolvem dois pólos complementares: o entrevistador e o entrevistado. Seja em meio impresso, audiovisual ou, mais recentemente, pela internet, as entrevistas apontam o fazer do profissional que realiza as perguntas e os pontos de vista daqueles que são escolhidos para relatarem acontecimentos ou experiências.

Em A arte da entrevista, identifica-se o século XIX como o momento do surgimento desta prática, motivada sobretudo pelas transformações sociais a partir das quais a sociedade burguesa teria começado a produzir aceleradamente celebridades. Estas eram os alvos dos entrevistadores, motivados justamente por seu destaque na sociedade em que se inseriam. Mas, além de evidenciar supostas “celebridades”, a publicização destes relatos no formato “pergunta-resposta” teria ainda o poder de transformar pessoas consideradas comuns em “donos da palavra”.

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A tendência indicada é ainda hoje visivelmente responsável por inúmeras entrevistas que se proliferam nos diversos meios de comunicação. Seja promovendo ou criando “celebridades”, nem sempre temos acesso a experiências de fato. A busca por “furos de reportagem” ou mesmo a tentativa de “arrancar informações” podem conduzir muitas das investidas de entrevistadores.

Em que pese a importância da transmissão de informações, temos na história oral e em outras formas de produção de conhecimentos formas alternativas e particulares de conduzir entrevistas e gerar novos documentos. Nestes casos, busca-se apreender experiências de relevo social que possam estimular debates públicos. Certamente, muitos jornalistas engrossam este grupo, cuja proposta é promover discussões consistentes e passíveis de desdobramentos menos efêmeros.

A abordagem de grupos considerados minoritários ou mesmo marginalizados é algo que reforça algumas das diferenças perceptíveis entre a entrevista de história oral e a realizada em outros meios. A ênfase na experiência e não na informação é também elemento de destaque, assim como o estabelecimento de uma relação em que o entrevistado é entendido como um colaborador, passível de influenciar em decisões referentes ao conteúdo que será publicado.

A despeito destas e de outras diferenças, são férteis os pontos de diálogo entre história oral e jornalismo. Em ambos os casos, podemos dizer que “Não há boa entrevista sem bom entrevistador. Perguntas frouxas e equivocadas implicam respostas idem. A inteligência das questões e a descoberta do mote correto podem transformar conversas aparentemente inócuas em depoimentos fortes… (ALTMAN, 2004, p.10). Afinal, além da centralidade do entrevistado, temos uma situação relacional marcada pela intersubjetividade. Falamos de entre-vista, momento de compartilhamento de experiências e trocas visuais e gestuais, que integram o teor daquilo que é posteriormente publicizado.

Estas questões implicam invariavelmente na ética e no respeito a todo e qualquer entrevistado e em sua narrativa.