Revista Oralidades lança seu novo número com o dossiê “Diversidades e Direitos”

Por Vanessa Generoso Paes e Márcia Nunes Maciel

A História Oral cada vez mais se legitima como estatuto de saber em diálogo como outros, ao invés de mera ferramenta auxiliar de pesquisa. A fundação da Associação Brasileira de História Oral (ABHO) em 1994 e a realização, no Rio de Janeiro, da X Conferência Internacional de História em 1998 foram marcos de um período no qual o termo, a ideia e a prática de História Oral se propagaram em universidades, centros de pesquisa, de documentação, museus e arquivos. Em nossos dias, a História Oral vem sendo desenvolvida em diferentes espaços: na academia, em comunidades e em instituições públicas e privadas, o que qualifica essa área do conhecimento como uma das mais promissoras tendências de entendimento da sociedade.

Dentro desse contexto, a Oralidades: Revista de História Oral surgiu em 2007 com o objetivo de contribuir para a discussão do fazer e do pensar da História Oral, oferecendo-se como espaço privilegiado de diálogo para pesquisadores de diferentes áreas e experiências. É necessário registrar que, além dela, só existe no Brasil um periódico acadêmico dentro dessa área do conhecimento, justamente a da ABHO. Sendo assim, a Oralidades ocupa papel importante no debate acadêmico (e também social), divulgando pesquisas desenvolvidas tanto no país como fora dele. A revista tem periodicidade semestral e publicou até o momento dez números. Desde 2010, possui também edição eletrônica, sendo possível acessar todos os números anteriores no seu site.

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A Oralidades contempla artigos de pesquisadores de diversas áreas do saber articulados com a história oral no âmbito local, nacional e internacional. No sentido de organizar tal produção e reunir textos afins, a revista adotou a ideia de dossiês temáticos, os quais são propostos e coordenados por professores e pesquisadores que estão vinculados ao NEHO. A revista é organizada e dividida em seis sessões: Linha & Ponto, Dossiê, Provocações, Historia Oral de Vida ou Entrevista, Tradução, Resenhas. Na Linha & Ponto, são apresentados textos de caráter ensaístico produzidos por autores convidados. No dossiê, articulam-se artigos referentes à temática escolhida para a edição. A sessão Provocações é o espaço para textos inovadores e provocativos sobre aspectos teóricos e práticos da história oral. História Oral de Vida ou Entrevistas prioriza as diferenciadas formas de apresentar resultados de entrevistas em História Oral. Tradução é um espaço reservado a textos de relevância internacional do debate da história oral. A sessão Resenhas atualiza a produção tanto em História Oral quanto com o diálogo que estabelece com os diferentes saberes. No conjunto das sessões, são reunidos temas que priorizam questões pertinentes à pesquisa da contemporaneidade. Seus autores desenvolvem reflexões e relatam experiências a partir de suas diferentes pesquisas ligadas à história oral.

O novo número da revista, cujo dossê temático é Diversidades e Direitos pode ser acessado no link abaixo:

Oralidades Diversidades e Direitos

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História oral de imigrantes e relatos de práticas alimentares, uma possibilidade de reflexão analítica

Por Vanessa Paola Rojas Fernandez

O estudo de movimentos migratórios contemporâneos por meio da história oral é uma opção metodológica crescente na atualidade. A importância social do tema e, portanto, de seu estudo e consequentes debates são inegáveis, uma vez que também é crescente o deslocamento de pessoas no globo e que este deslocamento não é somente uma mudança de espaço físico, mas também social, econômica, politica e cultural, entre outras (SAYAD, 1998).

Entendendo a história oral como um conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um projeto e que continua com o estabelecimento de um grupo de pessoas a serem entrevistadas (MEIHY & HOLANDA, 2007), diversas questões podem ser observadas e analisadas na prática da história oral de imigrantes: os motivos da emigração, os motivos da escolha do local de destino, as dificuldades e as facilidades encontradas, os sentimentos e as opiniões do processo migratório são algumas delas. Mas mais do que questões pontuais e objetivas, a riqueza dessa prática metodológica encontra-se na subjetividade existente e na concretização de estudos de identidade e de memória.

O relato de práticas alimentares presentes na história oral de imigrantes pode ser tomado como exemplo para uma possibilidade de reflexão analítica: a comida do país de origem e tudo o que a envolve – seus cheiros, seus sabores, seus rituais – faz parte do processo de negociação identitária a que são submetidos os grupos imigrantes. Mais do que nostalgia, a comida pode ser um vínculo com a identidade nacional de origem, uma das formas de manutenção da mesma no novo território, uma forma de identificação entre seus pares ou até mesmo de marcação de diferenças entre os diversos grupos existentes.

Cartaz da Associação de Chilenos Residentes em Campinas e Região Pablo Neruda, com referência às comidas e bebidas típicas do Chile servidas nessas festas.

Cartaz da Associação de Chilenos Residentes em Campinas e Região Pablo Neruda, com referência às comidas e bebidas típicas do Chile servidas nessas festas.

Em uma pesquisa de história oral realizada com chilenos imigrantes residentes na cidade de Campinas/SP (FERNANDEZ, 2011), observou-se:

A preservação de certos hábitos alimentares chilenos no Brasil, mesmo após muitos anos de imigração, na entrevista da chilena Herminda, que emigrou em 1975, após seu marido ficar desempregado no Chile com o início da ditadura militar. Entrevistada aos 62 anos de idade e aos 35 anos de residência no Brasil, Herminda explicou como e porque manteve no âmbito de sua casa elementos de sua identidade nacional de origem, citando comidas chilenas que ela mesma sempre preparou para sua família, ao mesmo tempo em que teve que aprender receitas novas, brasileiras, e inseri-las no cotidiano alimentar: “Dentro de minha casa eu sempre mantive o idioma espanhol, aqui somente se habla. (…) Durante todo esse tempo eu mantive também as comidas que tínhamos lá: sempre faço cazuela, carbonada, pastel de choclo, picarones… e todos em casa adoram! Nesse aspecto minha cabeça é mais chilena ainda…”

A chilena Marianne chegou ao Brasil em 1978, acompanhando o seu marido, o qual, diferente da maioria dos chilenos que emigraram, não estava desempregado, mas em busca de novas oportunidades. Entrevistada aos 55 anos de idade e 32 anos de residência no Brasil, Marianne não narrou a preservação de hábitos alimentares chilenos em seu cotidiano ao longo desses anos, mas falou sobre o choque cultural existente para ela no início do movimento migratório, usando para tanto o exemplo da comida, uma forma de evocar imagens e representações: “No começo era horrível, eu só pensava em ir embora, até o pão eu achava horrível, as frutas, tudo ruim!”

O chileno Osvaldo emigrou em 1986, por não suportar mais o autoritarismo vigente em seu país. Ele foi entrevistado aos 44 anos de idade e 24 anos de residência no Brasil. Sua padaria em Campinas não possui na fachada letreiros e alusões explícitas ao Chile, mas é conhecida entre os chilenos da colônia por vender diversas comidas típicas chilenas, como hallullas, chilenitos, sopaipillas e empanadas, que são preparadas por ele mesmo. Trata-se, portanto, de um lócus identitário entre os imigrantes da cidade, um local onde outros chilenos, que não produzem a sua própria comida chilena, podem consumi-la, como podemos perceber em sua explicação sobre o que, em sua opinião, não é conveniente no Brasil: “Eu acho que você passa coisas aqui que nunca teria passado no Chile, e não estou falando em termos financeiros, mas aqui acontecem coisas absurdas! Um dia veio um chileno em minha padaria comprar empanadas e ele me mostrou as passagens de avião dele e de sua família, estavam voltando pro Chile depois de um susto que passaram aqui…”

O chileno Luís também fez da comida de seu país de origem uma atividade comercial no Brasil, ao mesmo tempo em que esta atividade reforçava sua chilenidade. Primeiramente, montou um restaurante tipicamente chileno em Campinas, o “Recanto Chileno”, que existiu por mais de 15 anos. Atualmente, esse restaurante já não existe mais, mas faz parte da memória coletiva dos chilenos dessa cidade, pois foi um local de produção e circulação de gêneros alimentícios chilenos e de estreitamento de vínculos entre os chilenos residentes na cidade, onde podemos perceber que o local era também uma referência para os que chegavam: “Eu trabalhei nesse lugar até 1984, quando saí e comprei um bar-restaurante, que foi o Recanto Chileno. Daí começamos a mostrar a nossa cultura para os brasileiros, os chilenos de Campinas se reuniam aí. Ajudamos muitos chilenos também: talvez quinze, vinte, vinte e cinco pessoas que passaram por aí trabalhando. (…)Da rodoviária eram mandados pro Recanto”.

A chilena Berta, entrevistada aos 61 anos de idade e 32 anos de residência no Brasil, integrante ativa de uma associação de chilenos da cidade, contou-nos sobre a comida e os costumes típicos do Chile como elementos fundamentais para a manutenção de uma comunidade chilena na cidade, demonstrando aí a comida enquanto esfera pública e a sociabilidade envolvida em torno dela. Em dias festivos e momentos importantes para a coletividade dos imigrantes chilenos, a comida figura entre seus elementos identitários no Brasil: “Nossas festas pátrias sempre têm sido muito boas, o pessoal que vai à festa vai pra se divertir, assistir uma apresentação do nosso conjunto folclórico, dançar, comer empanadas, humitas, pastel de choclo, tomar vinho, tomar borgoña, ponche, cola de mono, que são comidas e bebidas típicas preparadas para essa data.”

Apresentamos aqui algumas histórias de comidas presentes nas histórias de vida de chilenos imigrantes que foram entrevistados para uma pesquisa de história oral. O tema principal da pesquisa não era a questão da comida enquanto elemento identitário, mas as experiências desses imigrantes e suas opiniões e versões sobre o movimento migratório por eles empreendido. Por ser um trabalho de história oral de vida, o método utilizado não comportou questionários fechados da entrevistadora para seus entrevistados, mas uma relação de colaboração da parte de ambos, em sessões de entrevistas livres e abertas, nas quais os entrevistados tinham ampla liberdade de narrar a história de suas vidas, baseadas em suas memórias pessoais (MEIHY & HOLANDA: 2007; MEIHY & RIBEIRO: 2011). Desse modo, inevitavelmente alguns dos entrevistados abordaram o tema da comida, uma vez que ela demonstra a questão das identidades e das experiências de adaptação no novo país.

Nas entrevistas, vimos a comida enquanto instrumento de construção de identidades: para alguns, um modo de reforçar a chilenidade, seja no âmbito privado, dentro de suas casas, seja no âmbito público, em locais que produzem e vendem essas comidas e em festas comemorativas do grupo. Nestes casos, a comida expressou também a ampla rede de sociabilidade existente entre os chilenos da cidade. Para outros, a comida pode ser não somente um modo de estabelecer e reforçar identificações entre seus pares, mas também de marcar diferenças, na medida em que as comidas chilenas diferem das comidas dos nacionais e de outros grupos imigrantes da cidade.

Referências:

FERNANDEZ, Vanessa Paola Rojas. Dilemas da construção de identidade imigrante: história oral de vida de chilenos em Campinas. São Paulo, 2011. Dissertação (mestrado em História Social) – Universidade de São Paulo.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom & HOLANDA, Fabíola. História oral. Como fazer, como pensar. São Paulo: Editora Contexto, 2007.

_________________________& RIBEIRO, Suzana Lopes Salgado. Guia prático de história oral. São Paulo: Editora Contexto, 2011. Paulo.

SAYAD, Abdelmalek. A Imigração. Ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: Edusp, 1998.

 

Afinal, para que serve a história oral?

Por Marcela Boni

Olhando superficialmente, a pergunta que nos serve de mote pode parecer despropositada. Afinal, nos esforçamos constantemente para ressaltar a importância dos projetos de história oral e seu potencial diálogo com outras áreas do conhecimento e com as questões sociais que se levantam no mundo contemporâneo.

Justamente pensando nisso, cabe-nos evidenciar o que direciona tais trabalhos a partir das etapas que os estruturam. Para tanto elencamos as seguintes perguntas: história oral quando, de quem, como, por quê e, finalmente, para quem?

quando nos insere a preocupações que envolvem a produção documental em casos onde não há outros registros acerca do tema estudado. Entretanto, a preocupação central da história oral não estaria no puro preenchimento de lacunas, mas na produção de documentos alternativos e na valorização das narrativas envolvidas, o que imprime traços de subjetividade ao fazer. Busca-se eleger, neste sentido, temas pertinentes ao momento em que se desenvolve o projeto, de modo que possa haver sempre que possível, diálogo público a respeito.

De quem? Simplificadamente, podemos dizer que a história oral tem como pressuposto privilegiar visões alternativas acerca das experiências históricas e, desta forma, teriam maior espaço em seu escopo os grupos considerados minoritários ou marginalizados socialmente. Entretanto, importa ressaltar que ainda que isto seja visível, é desejável que os projetos abarquem também as diversas versões sobre as temáticas estudadas. Assim, vítimas e perpetradores teriam espaço em tais estudos.

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Como colocar em prática? Enfatizamos frequentemente a importância da elaboração de um projeto para o desenvolvimento de trabalhos de história oral. Indubitavelmente, este é o passo fundamental. Para além disso, é necessário deixar claro qual o gênero de história oral adotado (história de vida, história oral temática, testemunhal ou tradição oral), o que implica diretamente nos procedimentos operacionais, sobretudo, na condução das entrevistas e nos desdobramentos analíticos posteriores.

Já os motivos de elaborar e colocar em prática um projeto de história oral tem a ver com apontamentos que não raras vezes é alvo de críticas por parte de outros pesquisadores e diz respeito a um posicionamento comprometido com o presente e as tranformações sociais. De acordo com MEIHY & RIBEIRO (2011) “Porque o ‘aqui e agora’ é matéria essencial da história oral, não há como deixar de ver clamores de mudanças”.

Por fim, isto nos encaminha para a última questão. Para quem é feita a história oral? Sem desconsiderar as expectativas dos pesquisadores envolvidos, este ponto remete diretamente ao aspecto receptivo dos resultados dos trabalhos de história oral. O público, por assim dizer. E nisto nos referimos ao espaço público como um todo e ao potencial de proposição de políticas públicas que tais estudos evocam. A busca por uma produção de conhecimentos comprometida com uma história pública tem sido palco de diálogos que se estabelecem entre diversos setores sociais e profissionais e desencadeado iniciativas que buscam divulgar as histórias de vida dos entrevistados, de modo a ampliar o debate público a respeito das questões que estas suscitam.

Mais detalhes teóricos e metodológicos podem ser encontrados no Guia Prático de História Oral, publicado pela Editora Contexto.

Entre-vistas: diálogos possíveis entre história oral e jornalismo

Por Marcela Boni

Quando falamos em história oral, inevitavelmente nos referimos à prática da entrevista. Esta é parte central dos trabalhos que se apóiam nos procedimentos de história oral e, portanto, deve obedecer suas especificidades, as quais envolvem questões éticas e metodológicas próprias.

Contudo, corriqueiramente nos deparamos com entrevistas as mais diversas. Acompanhando os fluxos de informações do mundo globalizado e contemporâneo, multiplicam-se também as formas de realizar e publicar seus resultados, sendo cada vez mais fundamental refletir acerca da recepção destes materiais.

Em grande parte, são produtos de origem jornalística os mais identificados com a prática que geralmente envolvem dois pólos complementares: o entrevistador e o entrevistado. Seja em meio impresso, audiovisual ou, mais recentemente, pela internet, as entrevistas apontam o fazer do profissional que realiza as perguntas e os pontos de vista daqueles que são escolhidos para relatarem acontecimentos ou experiências.

Em A arte da entrevista, identifica-se o século XIX como o momento do surgimento desta prática, motivada sobretudo pelas transformações sociais a partir das quais a sociedade burguesa teria começado a produzir aceleradamente celebridades. Estas eram os alvos dos entrevistadores, motivados justamente por seu destaque na sociedade em que se inseriam. Mas, além de evidenciar supostas “celebridades”, a publicização destes relatos no formato “pergunta-resposta” teria ainda o poder de transformar pessoas consideradas comuns em “donos da palavra”.

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A tendência indicada é ainda hoje visivelmente responsável por inúmeras entrevistas que se proliferam nos diversos meios de comunicação. Seja promovendo ou criando “celebridades”, nem sempre temos acesso a experiências de fato. A busca por “furos de reportagem” ou mesmo a tentativa de “arrancar informações” podem conduzir muitas das investidas de entrevistadores.

Em que pese a importância da transmissão de informações, temos na história oral e em outras formas de produção de conhecimentos formas alternativas e particulares de conduzir entrevistas e gerar novos documentos. Nestes casos, busca-se apreender experiências de relevo social que possam estimular debates públicos. Certamente, muitos jornalistas engrossam este grupo, cuja proposta é promover discussões consistentes e passíveis de desdobramentos menos efêmeros.

A abordagem de grupos considerados minoritários ou mesmo marginalizados é algo que reforça algumas das diferenças perceptíveis entre a entrevista de história oral e a realizada em outros meios. A ênfase na experiência e não na informação é também elemento de destaque, assim como o estabelecimento de uma relação em que o entrevistado é entendido como um colaborador, passível de influenciar em decisões referentes ao conteúdo que será publicado.

A despeito destas e de outras diferenças, são férteis os pontos de diálogo entre história oral e jornalismo. Em ambos os casos, podemos dizer que “Não há boa entrevista sem bom entrevistador. Perguntas frouxas e equivocadas implicam respostas idem. A inteligência das questões e a descoberta do mote correto podem transformar conversas aparentemente inócuas em depoimentos fortes… (ALTMAN, 2004, p.10). Afinal, além da centralidade do entrevistado, temos uma situação relacional marcada pela intersubjetividade. Falamos de entre-vista, momento de compartilhamento de experiências e trocas visuais e gestuais, que integram o teor daquilo que é posteriormente publicizado.

Estas questões implicam invariavelmente na ética e no respeito a todo e qualquer entrevistado e em sua narrativa.

História oral, teoria e prática: entre projetos e entrevistas

Por Marcela Boni

Iniciar um novo ano é sempre momento sugestivo para pensar em projetos. Sejam eles pessoais ou profissionais, invariavelmente nos colocam novas ideias e como organizá-las para que se concretizem.

Foi pensando sobre o aspecto organizacional dos projetos que nos voltamos para a definição de história oral, que aponta:

História oral é um conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um projeto e que continua com o estabelecimento de um grupo de pessoas a serem entrevistadas. O projeto prevê: planejamento da condução das gravações com definição de locais, tempo de duração e demais fatores ambientais; transcrição e estabelecimento de textos; conferência do produto escrito; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível, a publicação dos resultados que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as entrevistas. (MEIHY & HOLANDA, 2007, p. 15).

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A popularização do uso do termo história oral frequentemente demanda esclarecimentos. Além disso, cabe ressaltar a importância do aumento de projetos de história oral colocados em prática por diferentes grupos, dentro ou fora do ambiente acadêmico. Importa ainda levantar a existência de abordagens distintas desta forma de produção de conhecimentos.

Dito isto, aqui gostaríamos de sublinhar a relevância da elaboração de um projeto para a prática de pesquisas em história oral. Sua preparação requer, antes da realização das tão esperadas entrevistas, capacitação teórica e metodológica, sem a qual as ações desenvolvidas carecem de sustentação e possivelmente não passem de gravações de histórias isoladas. Estas, se amontoarão ao já repleto universo de informações que se proliferam na contemporaneidade pelos variados meios de comunicação, com grande probabilidade de cair no esquecimento em pouco tempo.

Neste sentido, a escolha de um tema e a construção de um projeto de pesquisa de história oral torna necessário para além de uma apresentação dos propósitos, a elaboração de uma justificativa que dialogue com a produção existente sobre o assunto (e isto vale mesmo para trabalhos realizados fora da academia), conferindo consistência ao trabalho que se propõe realizar. A clareza de objetivos e a metodologia adotada complementam esta reflexão precedente ao trabalho de campo e permitem aos pesquisadores envolvidos uma base a partir da qual podem se orientar ao longo do processo da pesquisa.

Podemos afirmar o que foi repetido em tantas ocasiões, que história oral não é sinônimo de entrevista. Embora sejam as entrevistas o “coração” destes trabalhos e a fonte que permitirá diferentes desdobramentos analíticos ou mesmo artísticos.

O que fazer para não “meter os pés pelas mãos”? E se mesmo sem o projeto pronto surge a oportunidade de gravar uma entrevista? Aliás, como é realizada uma entrevista de história oral?

São estas indagações imprescindíveis e que serão melhor desenvolvidas em momento oportuno. Por agora, vale a pena colocar uma discussão a nosso ver bastante promissora. Pode um projeto começar pela entrevista?

Iniciamos a discussão com um “sim”. É possível que uma entrevista ofereça os elementos para a elaboração do projeto. Porém, pensamos ser esta alternativa também algo que deve ser explicitado no projeto e indicado como parte de uma escolha, quando for o caso, ou mesmo como situação não premeditada e inspiradora de reflexões que levaram à sistematização de um fazer que possui procedimentos específicos para sua prática.

Seja como for, é nesta elaboração prévia que se pode dar o primeiro passo quando se pretende realizar um trabalho de história oral, ainda que a flexibilidade seja inerente ao processo que se inicia.