Entre-vistas: diálogos possíveis entre história oral e jornalismo

Por Marcela Boni

Quando falamos em história oral, inevitavelmente nos referimos à prática da entrevista. Esta é parte central dos trabalhos que se apóiam nos procedimentos de história oral e, portanto, deve obedecer suas especificidades, as quais envolvem questões éticas e metodológicas próprias.

Contudo, corriqueiramente nos deparamos com entrevistas as mais diversas. Acompanhando os fluxos de informações do mundo globalizado e contemporâneo, multiplicam-se também as formas de realizar e publicar seus resultados, sendo cada vez mais fundamental refletir acerca da recepção destes materiais.

Em grande parte, são produtos de origem jornalística os mais identificados com a prática que geralmente envolvem dois pólos complementares: o entrevistador e o entrevistado. Seja em meio impresso, audiovisual ou, mais recentemente, pela internet, as entrevistas apontam o fazer do profissional que realiza as perguntas e os pontos de vista daqueles que são escolhidos para relatarem acontecimentos ou experiências.

Em A arte da entrevista, identifica-se o século XIX como o momento do surgimento desta prática, motivada sobretudo pelas transformações sociais a partir das quais a sociedade burguesa teria começado a produzir aceleradamente celebridades. Estas eram os alvos dos entrevistadores, motivados justamente por seu destaque na sociedade em que se inseriam. Mas, além de evidenciar supostas “celebridades”, a publicização destes relatos no formato “pergunta-resposta” teria ainda o poder de transformar pessoas consideradas comuns em “donos da palavra”.

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A tendência indicada é ainda hoje visivelmente responsável por inúmeras entrevistas que se proliferam nos diversos meios de comunicação. Seja promovendo ou criando “celebridades”, nem sempre temos acesso a experiências de fato. A busca por “furos de reportagem” ou mesmo a tentativa de “arrancar informações” podem conduzir muitas das investidas de entrevistadores.

Em que pese a importância da transmissão de informações, temos na história oral e em outras formas de produção de conhecimentos formas alternativas e particulares de conduzir entrevistas e gerar novos documentos. Nestes casos, busca-se apreender experiências de relevo social que possam estimular debates públicos. Certamente, muitos jornalistas engrossam este grupo, cuja proposta é promover discussões consistentes e passíveis de desdobramentos menos efêmeros.

A abordagem de grupos considerados minoritários ou mesmo marginalizados é algo que reforça algumas das diferenças perceptíveis entre a entrevista de história oral e a realizada em outros meios. A ênfase na experiência e não na informação é também elemento de destaque, assim como o estabelecimento de uma relação em que o entrevistado é entendido como um colaborador, passível de influenciar em decisões referentes ao conteúdo que será publicado.

A despeito destas e de outras diferenças, são férteis os pontos de diálogo entre história oral e jornalismo. Em ambos os casos, podemos dizer que “Não há boa entrevista sem bom entrevistador. Perguntas frouxas e equivocadas implicam respostas idem. A inteligência das questões e a descoberta do mote correto podem transformar conversas aparentemente inócuas em depoimentos fortes… (ALTMAN, 2004, p.10). Afinal, além da centralidade do entrevistado, temos uma situação relacional marcada pela intersubjetividade. Falamos de entre-vista, momento de compartilhamento de experiências e trocas visuais e gestuais, que integram o teor daquilo que é posteriormente publicizado.

Estas questões implicam invariavelmente na ética e no respeito a todo e qualquer entrevistado e em sua narrativa.

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