História oral de imigrantes e relatos de práticas alimentares, uma possibilidade de reflexão analítica

Por Vanessa Paola Rojas Fernandez

O estudo de movimentos migratórios contemporâneos por meio da história oral é uma opção metodológica crescente na atualidade. A importância social do tema e, portanto, de seu estudo e consequentes debates são inegáveis, uma vez que também é crescente o deslocamento de pessoas no globo e que este deslocamento não é somente uma mudança de espaço físico, mas também social, econômica, politica e cultural, entre outras (SAYAD, 1998).

Entendendo a história oral como um conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um projeto e que continua com o estabelecimento de um grupo de pessoas a serem entrevistadas (MEIHY & HOLANDA, 2007), diversas questões podem ser observadas e analisadas na prática da história oral de imigrantes: os motivos da emigração, os motivos da escolha do local de destino, as dificuldades e as facilidades encontradas, os sentimentos e as opiniões do processo migratório são algumas delas. Mas mais do que questões pontuais e objetivas, a riqueza dessa prática metodológica encontra-se na subjetividade existente e na concretização de estudos de identidade e de memória.

O relato de práticas alimentares presentes na história oral de imigrantes pode ser tomado como exemplo para uma possibilidade de reflexão analítica: a comida do país de origem e tudo o que a envolve – seus cheiros, seus sabores, seus rituais – faz parte do processo de negociação identitária a que são submetidos os grupos imigrantes. Mais do que nostalgia, a comida pode ser um vínculo com a identidade nacional de origem, uma das formas de manutenção da mesma no novo território, uma forma de identificação entre seus pares ou até mesmo de marcação de diferenças entre os diversos grupos existentes.

Cartaz da Associação de Chilenos Residentes em Campinas e Região Pablo Neruda, com referência às comidas e bebidas típicas do Chile servidas nessas festas.

Cartaz da Associação de Chilenos Residentes em Campinas e Região Pablo Neruda, com referência às comidas e bebidas típicas do Chile servidas nessas festas.

Em uma pesquisa de história oral realizada com chilenos imigrantes residentes na cidade de Campinas/SP (FERNANDEZ, 2011), observou-se:

A preservação de certos hábitos alimentares chilenos no Brasil, mesmo após muitos anos de imigração, na entrevista da chilena Herminda, que emigrou em 1975, após seu marido ficar desempregado no Chile com o início da ditadura militar. Entrevistada aos 62 anos de idade e aos 35 anos de residência no Brasil, Herminda explicou como e porque manteve no âmbito de sua casa elementos de sua identidade nacional de origem, citando comidas chilenas que ela mesma sempre preparou para sua família, ao mesmo tempo em que teve que aprender receitas novas, brasileiras, e inseri-las no cotidiano alimentar: “Dentro de minha casa eu sempre mantive o idioma espanhol, aqui somente se habla. (…) Durante todo esse tempo eu mantive também as comidas que tínhamos lá: sempre faço cazuela, carbonada, pastel de choclo, picarones… e todos em casa adoram! Nesse aspecto minha cabeça é mais chilena ainda…”

A chilena Marianne chegou ao Brasil em 1978, acompanhando o seu marido, o qual, diferente da maioria dos chilenos que emigraram, não estava desempregado, mas em busca de novas oportunidades. Entrevistada aos 55 anos de idade e 32 anos de residência no Brasil, Marianne não narrou a preservação de hábitos alimentares chilenos em seu cotidiano ao longo desses anos, mas falou sobre o choque cultural existente para ela no início do movimento migratório, usando para tanto o exemplo da comida, uma forma de evocar imagens e representações: “No começo era horrível, eu só pensava em ir embora, até o pão eu achava horrível, as frutas, tudo ruim!”

O chileno Osvaldo emigrou em 1986, por não suportar mais o autoritarismo vigente em seu país. Ele foi entrevistado aos 44 anos de idade e 24 anos de residência no Brasil. Sua padaria em Campinas não possui na fachada letreiros e alusões explícitas ao Chile, mas é conhecida entre os chilenos da colônia por vender diversas comidas típicas chilenas, como hallullas, chilenitos, sopaipillas e empanadas, que são preparadas por ele mesmo. Trata-se, portanto, de um lócus identitário entre os imigrantes da cidade, um local onde outros chilenos, que não produzem a sua própria comida chilena, podem consumi-la, como podemos perceber em sua explicação sobre o que, em sua opinião, não é conveniente no Brasil: “Eu acho que você passa coisas aqui que nunca teria passado no Chile, e não estou falando em termos financeiros, mas aqui acontecem coisas absurdas! Um dia veio um chileno em minha padaria comprar empanadas e ele me mostrou as passagens de avião dele e de sua família, estavam voltando pro Chile depois de um susto que passaram aqui…”

O chileno Luís também fez da comida de seu país de origem uma atividade comercial no Brasil, ao mesmo tempo em que esta atividade reforçava sua chilenidade. Primeiramente, montou um restaurante tipicamente chileno em Campinas, o “Recanto Chileno”, que existiu por mais de 15 anos. Atualmente, esse restaurante já não existe mais, mas faz parte da memória coletiva dos chilenos dessa cidade, pois foi um local de produção e circulação de gêneros alimentícios chilenos e de estreitamento de vínculos entre os chilenos residentes na cidade, onde podemos perceber que o local era também uma referência para os que chegavam: “Eu trabalhei nesse lugar até 1984, quando saí e comprei um bar-restaurante, que foi o Recanto Chileno. Daí começamos a mostrar a nossa cultura para os brasileiros, os chilenos de Campinas se reuniam aí. Ajudamos muitos chilenos também: talvez quinze, vinte, vinte e cinco pessoas que passaram por aí trabalhando. (…)Da rodoviária eram mandados pro Recanto”.

A chilena Berta, entrevistada aos 61 anos de idade e 32 anos de residência no Brasil, integrante ativa de uma associação de chilenos da cidade, contou-nos sobre a comida e os costumes típicos do Chile como elementos fundamentais para a manutenção de uma comunidade chilena na cidade, demonstrando aí a comida enquanto esfera pública e a sociabilidade envolvida em torno dela. Em dias festivos e momentos importantes para a coletividade dos imigrantes chilenos, a comida figura entre seus elementos identitários no Brasil: “Nossas festas pátrias sempre têm sido muito boas, o pessoal que vai à festa vai pra se divertir, assistir uma apresentação do nosso conjunto folclórico, dançar, comer empanadas, humitas, pastel de choclo, tomar vinho, tomar borgoña, ponche, cola de mono, que são comidas e bebidas típicas preparadas para essa data.”

Apresentamos aqui algumas histórias de comidas presentes nas histórias de vida de chilenos imigrantes que foram entrevistados para uma pesquisa de história oral. O tema principal da pesquisa não era a questão da comida enquanto elemento identitário, mas as experiências desses imigrantes e suas opiniões e versões sobre o movimento migratório por eles empreendido. Por ser um trabalho de história oral de vida, o método utilizado não comportou questionários fechados da entrevistadora para seus entrevistados, mas uma relação de colaboração da parte de ambos, em sessões de entrevistas livres e abertas, nas quais os entrevistados tinham ampla liberdade de narrar a história de suas vidas, baseadas em suas memórias pessoais (MEIHY & HOLANDA: 2007; MEIHY & RIBEIRO: 2011). Desse modo, inevitavelmente alguns dos entrevistados abordaram o tema da comida, uma vez que ela demonstra a questão das identidades e das experiências de adaptação no novo país.

Nas entrevistas, vimos a comida enquanto instrumento de construção de identidades: para alguns, um modo de reforçar a chilenidade, seja no âmbito privado, dentro de suas casas, seja no âmbito público, em locais que produzem e vendem essas comidas e em festas comemorativas do grupo. Nestes casos, a comida expressou também a ampla rede de sociabilidade existente entre os chilenos da cidade. Para outros, a comida pode ser não somente um modo de estabelecer e reforçar identificações entre seus pares, mas também de marcar diferenças, na medida em que as comidas chilenas diferem das comidas dos nacionais e de outros grupos imigrantes da cidade.

Referências:

FERNANDEZ, Vanessa Paola Rojas. Dilemas da construção de identidade imigrante: história oral de vida de chilenos em Campinas. São Paulo, 2011. Dissertação (mestrado em História Social) – Universidade de São Paulo.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom & HOLANDA, Fabíola. História oral. Como fazer, como pensar. São Paulo: Editora Contexto, 2007.

_________________________& RIBEIRO, Suzana Lopes Salgado. Guia prático de história oral. São Paulo: Editora Contexto, 2011. Paulo.

SAYAD, Abdelmalek. A Imigração. Ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: Edusp, 1998.

 

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