Transcriação e colaboração: mais que conceitos, uma forma de compartilhar conhecimentos

Por Marcela Boni

Diante de tantas possibilidades que se mostram atualmente para o trabalho com história oral, por vezes nos deparamos com uma vivência de trabalho utilitária, ainda que comprometida com rigores relativos ao trabalho de pesquisa.

Certamente que tal situação não poderia ser imaginada poucos anos atrás, quando os estudos de história oral eram menos difundidos e gozavam de menos prestígio, sobretudo em ambiente acadêmico.

Não foi sem esforços grandiosos e insistentes que, acompanhando a ocupação de novos espaços, sobretudo, em ambiente comunitário e institucional, a reflexão teórica se tornou mais consistente. E, a despeito das diferentes tendências e abordagens nos usos da história oral, podemos observar uma produção teórica que se consolida pautada em discussões procedimentais, éticas e metodológicas.

Em todo caso, alguns procedimentos adotados por parte dos pesquisadores da área continuam sendo questionados, especialmente no que concerne à requerida cientificidade da produção de conhecimentos.

Dois conceitos são particularmente alvos de críticas neste sentido: o de colaboração e o de transcriação, ambos introduzidos por José Carlos Sebe Bom Meihy.

Em linhas gerais, tratam-se de conceitos cujas definições são complementares. Colaboração pressupõe justamente a aceitação de que o produto final de um projeto de história oral é resultado de uma dupla representatividade. Desta forma, pesquisador e entrevistado, aqui denominado colaborador, assumem a responsabilidade pelo produto confeccionado coletivamente. A entrevista de história oral, elemento central do trabalho é, assim, a reprodução de um encontro a partir do qual se constrói uma narrativa a respeito de determinado assunto ou tema pertinente à pesquisa.

Evidentemente não se busca, com isso, ocultar as relações de poder que se colocam, nem tampouco subtrair as diferenças de gênero, geração ou de origem que marcam as subjetividade envolvidas. Contudo, ao aceitar as condições colocadas abre-se a possibilidade de uma produção de saberes diferenciada porque atinente a tais contradições.

A idéia de colaboração, ao se amparar neste pressuposto convoca a elaboração textual que culmina com a transcriação.

Esta definição, apropriada da literatura, no campo da história oral confere ao autor do projeto a possibilidade de construção de uma narrativa atenta mais aos sentidos do que é falado durante a entrevista do que à reprodução de palavras de forma literal. Daí a importância do comprometimento por parte do pesquisador tanto com o entrevistado quanto com sua história. História esta, que se torna de conhecimento do pesquisador para além do momento da entrevista.

O envolvimento que se estabelece pode fugir à cientificidade exigida por alguns, entretanto denota o caráter humano que envolve o trato com pessoas que, mais que objetos de pesquisa, são protagonistas de suas trajetórias, as quais colorem nossas pesquisas e sem as quais não teríamos condições mínimas de levar a cabo projetos de história oral.

O mote para esta reflexão está relacionado a uma experiência pessoal desencadeada pela pesquisa de mestrado “Padecer no paraíso? Experiências de mães de jovens em conflito com a lei”, na qual foram entrevistadas mulheres que tiveram parte de suas histórias marcadas pela experiência de uma maternidade adversa.

As história ouvidas e reproduzidas em textos transcriados gerou não somente a dissertação de mestrado mencionada, felizmente!

Mas, foi apropriada por uma das colaboradoras, Solange Prudes, em parte da publicação idealizada pelo grupo “Mães de Maio” no livro intitulado “Mães de Maio, Mães no Cárcere – A Periferia Grita”.

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Parte da história de vida transcriada foi utilizada por Solange em sua participação na publicação. Ali estava sua história. Sua autoria, mais que apropriada, levava entre parênteses minha participação. Assim como em minha dissertação sua presença dividiu espaço com outras colaboradoras e com minhas análises.

Transcriação, colaboração e, mais que tudo, a validação do meu trabalho exposta na identificação de minha colaboradora com o NOSSO texto!

O resultado do trabalho de história oral pode não ter sempre esse desdobramento, mas indiscutivelmente apreciar esse desfecho reforça as reflexões teóricas e metodológicas que tantos de nós nos esforçamos para construir!

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