Conhecimento é pra compartilhar! O rádio como espaço de difusão e valorização de saberes em diálogo com a história oral

Por Marcela Boni

Em tempos em que o audiovisual ocupa cada vez mais espaço, muito já foi dito a respeito das transformações metodológicas nas práticas utilizadas pela história oral. Cada vez mais são produzidos vídeos com o intuito de contar histórias das mais diversas modalidades e com objetivos que são tão múltiplos quanto os formatos dos documentos produzidos.

Entretanto, ao nos voltarmos para a história desta área de conhecimento, verificamos a centralidade da oralidade. E basta que nos permitamos um simples exercício para percebermos o quanto a experiência sensorial ligada à escuta é particular e insubstituível. Exemplo prosaico seria comparar ouvir uma música e assistir ao videoclipe da mesma. Embora o vídeo possa ampliar o circuito criativo dos envolvidos com a obra, sua recepção pelo público tende a minimizar as imagens criadas pelos próprios ouvintes ao ouvirem a música. Não é à toa que muitos de nós já nos pegamos ouvindo músicas de olhos fechados…

Com isto, pretendemos evidenciar as especificidades da oralidade e dos sons e trazer ao diálogo as múltiplas possibilidades existentes no rádio enquanto meio de comunicação. Sabemos que seu status de elemento principal na divulgação cultural há décadas foi substituído pela televisão. Porém, diferente de tirar de cena o rádio, esta nova condição estimulou criativamente o espaço que ocupa, ressignificando seu potencial em termos de produção e difusão de conhecimentos e saberes, bem como das relações estabelecidas com o público.

Em alguns casos, os que valem a reflexão aqui posta, as rádios absorveram de forma brilhante este potencial, agregando à vocação de “tocar músicas” um comprometimento com a sociedade e, sobretudo, com os grupos que pertencem às comunidades próximas. Falamos, sobretudo, das rádios comunitárias que sem dúvida se prestam muito mais que a divertir seus ouvintes. Além do entretenimento, programas elaborados especialmente para tratar de temas contemporâneos e com caráter informativo casam de forma harmoniosa com a participação sempre possível com os ouvintes.

A rádio comunitária Rádio Cidadã, localizada no bairro do Butantã é exemplo de tudo quanto foi dito. Mas, para além desses atributos possivelmente o mais especial seja o de não “nivelar por baixo” seus ouvintes. Independente da formação da comunidade, todos são convidados mais que a ouvir canções selecionadas ou pedidas, a refletir sobre questões de revelo social, principalmente aquelas que envolvem diretamente os interesses mais particulares do local.

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Exemplo disso é o Programa História Cidadã, que tem como ponto de partida a discussão de temas históricos e de outras áreas correlatas e que conta com a participação de pesquisadores de diversas disciplinas para propor discussões e reflexões.

O Núcleo de Estudos em História Oral teve sua participação neste projeto. Algo que demonstra um diálogo promissor entre as possibilidades oferecidas pelos dispositivos oferecidos pelo rádio e os métodos e práticas da história oral.

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Em comum, ambos tem no contato com a oralidade seu canal de pensamento e disseminação de conhecimentos. Juntos podem promover inúmeras relações que se baseiem na valorização das histórias das pessoas, seu registro e, principalmente, sua publicização. Desta forma, convidam os sujeitos a protagonizarem suas histórias e, principalmente, sentí-las como parte integrante e indispensável dos processos históricos pelos quais passamos. Ao tornar de alcance público tais experiências, o rádio mais uma vez pode ressiginificar seu papel na sociedade.